terça-feira, 15 de julho de 2008

A vida como um Fast Food: Peça pelo número!!!

Artigo enviado pelo Botequeiro Thiago Sales



A rotina com que levamos nossas vidas, muitas vezes acaba por mascarar uma ansiedade brutal em tudo o que fazemos ou vivemos, sejam fatos, repostas, valores, pessoas, notícias...
Tudo precisa ser instantâneo. No transito, ninguém pode nos atrapalhar. Se precisamos parar, esperar, deixar alguém passar, nosso nível de stress/ansiedade aumenta. E se alguém nos fecha, mesmo que involuntariamente, seja por qual for o motivo: idade, cansaço, ou até mesmo por não saber dirigir – nosso instinto animal aparece na hora e desejamos matar aquele que nos atrapalha. Meu mundo, meus compromissos, o dinheiro que estou deixando de ganhar, nada disso pode esperar sua falta de atenção!
“Desejo todo dia, e a cada dia mais, que todos sejam melhores e mais educados comigo. O mundo precisa me servir, minha ansiedade está aumentando... Quero novas notícias, novas canções, poemas, amores, realizações, dinheiro, tudo na velocidade de um clique.”
“Você já pediu seu lanche? Sim, enquanto você não chegava eu resolvi pedir para ganhar tempo. Olha o tamanho da fila agora!?, Eu pedi o nº 1, mas tá demorando demais!! Se eu tiver que esperar mais um minuto vou pedir meu dinheiro de volta!! Isso é um absurdo?! Vamos no outro, olha lá, ta saindo mais depressa!!”
Ultimamente, tudo em nossa vida precisa e deve ser instantâneo, senão não serve...
“Namoro? Não, quero ficar... Aquela menina tá me olhando, mas cheguei e ela não quis me beijar, vou tentar outra.”
Queremos que beijos e amores aconteçam de imediato. Quero pessoas perfeitas, belas, sinceras, mas só para que eu beije/use uma vez. “Depois? Não sei, qualquer dia nos vemos de novo... Mas e a perfeição, os detalhes que eu exigi para que ela servisse pra mim? Acabou!! Já beijei, a fila andou....”
Não há mais conquista. Os amores, se é que ainda existem, têm prazo de validade. A maioria vale para uma noite. O outro, seus problemas, anseios, opiniões, diferenças, detalhes? “Não quero ouvi-los nem conhecê-los, para mim nada significam...”
Cumplicidade, amizade, honestidade, seu jeito de ser, seus caprichos, seus defeitos, seus dias de carência ou de mau humor: “Nada disso me importa.” Não toleramos mais nada. Nosso dia-dia não permite.
“A mensagem que você deixou no meu Orkut ontem, já está velha. Apaguei. Espero que mande outra logo. Você não tem conteúdo!? Não fala nada de novo, não compra as roupas da moda. Seu carro já tem cinco anos? Tá velho hein, precisando trocar... Mas me fala uma coisa: todo mundo saiu no último sábado, não te vi lá? Ficou em casa? Tá ficando caído hein?!”
Aqueles que não entram na ansiedade coletiva muitas vezes são criticados ou vistos como caretas. Não dá pra ser e viver assim...
Falta dar um bom dia ao estranho que cruza com você pela manhã. Reparar na flor que nasceu em meio ao concreto da calçada. Ter mais paciência e menos pressa. Perguntar por que sou assim? Procurar meus reais motivos, meus objetivos, demorar pra fazer uma canção, apreciar um poema, escrever para um amigo, gostar das bandas de rock antigas, que já se foram, mas que me marcaram, exclamar em voz alta meus pensamentos, sem receio da censura dos modismos e do imediatismo dos dias atuais. Ser feliz no que faço, no que vivo, no que declaro, no que trabalho. Aceitar diferenças e dificuldades. Desistir de planos megalômanos de fortuna e poder. Ser feliz do seu jeito. Esperar um tempo maior pelo almoço, sabendo que foi feito com carinho, por homens e mulheres, que podem falhar ou atrasar, mas que o fazem felizes.
Percebi que não existem mais jardins nas casas. Antes da serenata procurei uma rosa pra roubar: só encontrei muros altos, casas fechadas e pessoas idem...
Ah.. será que alguém, além de mim, também reparou que as pombinhas não estão voando mais? Por toda a cidade, elas agora vivem pelo chão, andando e não voando, se acostumaram com as migalhas fáceis que deixamos cair, na nossa ânsia em consumir rápido e no nosso desperdício, despercebido e diário. Elas também adotaram o fast food. Será que vão pedir pelo número?

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro pensador,
Adorei esse seu texto. Me caiu como uma luva! rs
A "3ª Revolução Industrial" que no início surgiu como desculpa pra dar mais tempo às pessoas, na verdade, roubou-o dela. Ninguém tem mais tempo pra nada. E todos parecem viver numa constante competição. As pessoas são como quebra-cabeças que devem ser encaixados em um grupo, numa sociedade, ou... E a peça se não perfeita é lapidada e assim perdemos nosso íntimo, nossa educação, nossos princípios básicos, nossa própria ética pra satisfazer o que suponhamos ser exigido do mundo ou de uma classe. E não é bem assim, no meu ponto-de-vista. Todos nós ainda temos o livre arbítrio pra escolher e ousar da nossa ética e do nosso bom senso.

obs: coincidência ou não tive que fazer uma redação baseada no seu texto hoje rs

Abraço!

Sofia Fresca